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Um café e… dois dedos de conversa com
Amândio Lobo
Desenrolámos
esta conversa com o Amândio no café do senhor
“Domingues”, ao Bairro do Liceu, ponto de encontro de
alguns atletas das Lebres, numa tarde chuvosa e fria
como aliás nos tem brindado este Inverno quase todos os
dias.
Amândio Lobo, sessenta anos, beirão de Castanheira de
Pêra, administrativo de profissão na função de
Tesoureiro de uma empresa de Construção Civil,
recentemente reformado, casado com uma Professora de
Educação Física também reformada há bem pouco tempo, pai
de dois filhos, um deles o Tiago Lobo, praticante de
Triatlo e um excelente atleta / sócio das Lebres na
prática do Atletismo.
Correcto e educado para com todos os que o rodeiam, é
porém um pouco reservado e ponderado no diálogo.
Como é que um homem de Castanheira de Pêra veio fazer
vida em Setúbal, foi a primeira questão que lhe
colocamos.
“vim cumprir o serviço militar com vinte anos para o
Quartel do 11, conheci a Alice e por aqui fiquei, já lá
vão quarenta anos. Hoje, considero-me mais setubalense
que beirão.”
“…não tenho passado desportivo, uns pontapés na bola
meia dúzia de vezes quando era jovem.
Aos 55 anos, porque me sentia um pouco pesado, por
iniciativa própria, comecei a dar umas corridinhas no
jardim de Vanicelos para desentorpecer as pernas e
abater a barriga. Foi por aí que travei conhecimento com
o Manuel Pedro, o Fernando Ganhão e mais dois ou três.
Comecei a acompanhá-los com mais assiduidade e daí à
filiação nas Lebres por convite, foi um passo”.
Á questão, que avaliação faz de si depois de cinco anos
de prática do atletismo, sendo um autodidacta, responde:
“Sinto-me bem, aliás, cada vez melhor, é para
continuar e neste momento seria muito mau ter que parar
com a actividade. Felizmente tenho tido sorte, é o que
eu chamo, sorte. Por uma qualquer razão, talvez por
questão genética, pela minha compleição física, não sei,
as lesões não me têm apoquentado, e lá vou para os
treinos e para a competição com entusiasmo”.
Não tenho treinadores. Treino quanto posso, como posso e
às horas que posso em média quatro vezes por semana
quando tenho provas ao Domingo ou cinco no caso de não
haver competição. Ando pelos 50 a 60 kms semanais
excepto nestes últimos tempos em que me preparei e
preparo para a Maratona de Lisboa – 3,32h e de Sevilha
respectivamente.” A de Sevilha é já no próximo dia 22 de
Fevereiro.
“Nesta altura tenho cumprido mais 20 a 25 kms por
semana.”
Que objectivos para Sevilha?
“Tentar chegar ao fim como primeira prioridade e se
possível realizar o tempo que fiz recentemente na
Maratona de Lisboa. Sei que não vai ser fácil. Vou
procurar uma companhia para me sentir melhor, pois nem
em cinco, dez quilómetros ou qualquer outra distância me
sinto bem a correr sozinho. Encontrar um pendura que me
acompanhe ombro a ombro será o ideal. Um pendura que vá
à minha frente, não, esse estoira logo comigo.
E nos treinos, sozinho ou acompanhado ?
“ Sempre acompanhado. Posso fazer todo o treino calado,
nem sempre acontece, mas só pelo facto de ter companhia
durante uma hora ou mais, levanta-me a moral. Sozinho a
andar no meio do mato não estimula. Sem dúvida que
acompanhado é sempre diferente”.
Quando diz andar no meio do mato, coloco-lhe a seguinte
questão.
Somos ou não, nós setubalenses praticantes do atletismo
de estrada uns privilegiados geograficamente ?
“Não sei, talvez por termos aqui próximo de nós a
serra e mais dois ou três locais, possamos ser
privilegiados embora com zonas muito íngremes, mas de
certeza que há locais melhores para treinar”.
A propósito de equipamentos para a prática do Atletismo,
coloco-lhe a seguinte questão.
Outrora, nós setubalenses éramos acérrimos críticos
quanto à inexistência de um equipamento de qualidade
para o Atletismo. Hoje, temos em Setúbal uma excelente
pista de nível internacional e está sub-ocupada na sua
utilização ?
“pelo que sei e que oiço, as condições para a
utilização da pista não são compatíveis para todos os
praticantes !!!!! – uma outra situação que pode ser
condicionante é a sua localização, um pouco distante da
cidade e sem transportes ou com muito poucos que lhe
dêem acesso”.
Amândio Lobo, atleta com cinco anos de Lebres, é desde
Dezembro de 2008, Secretário da Assembleia Geral do
clube.
Pergunto-lhe;
Que avaliação faz do clube ?
“Tenho uma óptima impressão das Lebres, até porque
também não tenho vivências com outros clubes. Gosto de
lá estar, muito embora por vezes, não possa concordar
com certas posições tomadas. Contudo, entendo que o
clube satisfaz as necessidades de uma associação deste
cariz na prática das modalidades existentes”.
Á pergunta se as Lebres poderiam contribuir com algo
mais para a qualidade da prática desportiva dos seus
atletas, Amândio Lobo respondeu assim:
“penso que não, não, não tem condições. Á coisas que
poderiam ser melhor estruturadas. Por exemplo,
determinadas provas que se prevê de grande fluxo de
atletas nossos, em vez de cada um de nós andar à procura
de transportes entre nós, poder-se-ia antecipadamente
alugar um autocarro, pagando naturalmente os atletas.
Para algumas provas, por exemplo as meias maratonas das
pontes, se com muita antecedência nos fosse informado
que haveria um transporte, penso que mais atletas do
clube estariam presentes e a comodidade de facto seria
outra”.
Por outro lado ainda e no que ao Atletismo diz respeito,
têm surgido alguns desajustamentos nas inscrições dos
atletas. Por vezes quando julgamos que estamos inscritos
tal não se verifica. Talvez o antigo sistema fosse para
muitos mais fiável e adequado”.
As Lebres têm condições para criar outra modalidade?
“neste momento penso que não. Das quatro existentes é
de facto o atletismo que tem uma estrutura mais
desenvolvida. As outras ainda estão em embrião e sem
elevar os níveis estruturais destas, não devemos pensar
noutras”.
Qual o futuro das Lebres relativamente à continuidade de
sócios para assegurarem a sua gestão?
Ou como tantos outros clubes em Setúbal, está presa por
arames ?
“por arames não será, acho que as Lebres têm
viabilidade pela avaliação que faço. No meu entender
acho que possuímos sócios capazes de darem continuidade
ao que até aqui tem sido feito, embora eu não me sinta
com capacidade para estar à frente de um clube como o
nosso, pois prevejo que há que ter muitos conhecimentos
para ir ao encontro das necessidades do clube,
nomeadamente a questão financeira”.
Setúbal é uma cidade desportiva ?
“penso que não, apesar de tudo Setúbal não é uma
cidade com vocação para o desporto. Faltam-lhe os apoios
autárquicos, Câmara Municipal e Juntas de Freguesia.
Não, não está vocacionada para ser uma cidade de prática
desportiva, nem criam condições para isso. Não vejo por
parte dos poderes autárquicos iniciativas para que o
desporto vá para a frente”.
Mas, como é que a autarquia pode dar apoio a um
associativismo de mais de noventa clubes, verdade que
muitos dos quais amorfos, inactivos? No seu parecer
Setúbal não é uma cidade vocacionada para o desporto.
Essa responsabilidade é da autarquia ou da falta de
DIRIGENTES desportivos ?
“penso que os clubes têm força e vontade para irem
mais além, há de facto a necessidade de serem mais
apoiados. No nosso caso por exemplo na prática do
Atletismo de estrada. Existe uma pista, já falamos nela,
mas e um circuito de manutenção e uma ciclo via ou ciclo
pista? Por esse país fora, qualquer concelho tem
condições muitíssimo superiores do que a oferta
existente na cidade de Setúbal para a prática
desportiva.
O Amândio é casado com uma professora de Educação
Física. O Desporto Escolar tem condições para ser um
veiculo de captação de sensibilização dos nossos jovens
à prática desportiva?
“não conheço muito bem o que se faz no Desporto
Escolar. Mas penso que sim pode ter um contributo muito
grande para a prática desportiva dos nossos jovens.
Porém, o que se está a passar com o ensino no nosso
país, as exigências burocráticas, as muitas “coisinhas”
que agora são exigidas, leva a que os professores de
Educação Física não se sintam motivados para
transmitirem aos alunos o início de uma formação
desportiva!”.
Juventude e corrida. Qual a razão do pelotão português
ser velho?
“hoje os jovens têm mais com que se entreter enquanto
os mais velhos por razões de saúde se dedicam à prática
do atletismo. A juventude tem outras opções de ocupação
e não têm uma prática desportiva por nunca terem
experimentado ou por não se sacrificam por exemplo a
andar na Serra, apanhando sol, frio, vento e chuva”.
E pronto, foi a conversa possível com um atleta das
Lebres, ponto de partida para, na Página do clube,
dar-mos a conhecer e conhecermos o património humano das
Lebres do Sado.
Combinámos um treino para a Quinta feira seguinte. |
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05.02.2009, por Alberto Carolino |
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