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Um café e… dois dedos de conversa com
Herculano Pereira
“Um
café e dos dedos de conversa com” … Herculano Pereira,
beirão de Castro de Aire, 54 anos, entrou na Marinha aos
21 chegando a Sargento Ajudante.
Presentemente na Reserva, casado com uma madeirense,
conheceram-se em Setúbal.
Pai de dois filhos e já com um netinho, é um homem com
um discurso fluido que, procuraremos descrever,
assumindo as nossas dificuldades por falta total de
formação jornalística.
Tem no seu currículo vários cursos de monitor de
Educação Física com aplicação prática na formação de
outros camaradas de profissão, nomeadamente na Natação e
Orientação.
É um conversador nato.
Poucas questões lhe colocámos dada a facilidade em
exprimir o seu pensamento e a forma como o transmite,
numa sequência lógica e apaixonada que, com o desenrolar
do seu discurso, vai involuntariamente afastando-se do
tema em questão. Por vezes tínhamos que o interromper e
centraliza-lo na questão colocada.
Adepto da disciplina e do respeito, não fosse militar de
profissão, sente uma paixão pela Serra da Arrábida, seu
local de treino por excelência durante seis vezes por
semana. Optou muito recentemente pelas provas de
Montanha onde, afirma, o convívio entre atletas é muito
superior às provas de estrada.
Sem ter enquanto jovem um passado desportivo, até aos 20
anos depois de ter concluído o ensino secundário de
então, ajudava os pais no campo como tractorista. A sua
primeira prova oficial foi logo uma Ultra-maratona
realizada em 1976, na Freguesia do Pinheiro, Concelho de
Castro de Aire.
De há dois anos para cá representa como atleta as Lebres
do Sado sendo um dos seus melhores praticantes.
“… já com dois trails realizados, em 1977 fiz o
segundo, quando entrei para a Marinha fui convidado por
outros camaradas para a equipa de atletismo já
constituída. Comecei a participar e até hoje nunca mais
parei. De facto em miúdo não tive passado desportivo.
Sou primo do então atleta Anacleto Pinto e talvez desse
laço familiar resulte enfim, alguma apetência e
qualidade. Em 79 / 80, na Marinha, especializei-me em
Educação Física e daí até 2005 passei a desempenhar
funções de Monitor na área do desporto. Digamos também
que a prática desportiva nasceu como consequência da
minha vida profissional conjugado ao prazer que sinto
enquanto praticante.
Tem também um fraquinho pela Orientação. Perde-se no
tempo a falar desta modalidade.
“… fui campeão nacional de Orientação nas Forças
Armadas durante três anos seguidos, ao longo dos quais
ganhei quase todas as competições em que participei.
Esta incursão pela Orientação é também uma consequência
da actividade profissional na área do desporto que
desenvolvia na Marinha.
Enquanto fazia Orientação participava também nos
Corta-matos e nas provas de pista, 100, 800 e 1500
metros, das competições das Forças Armadas.
Ao passar para a vida civil desliguei-me um bocado da
Orientação porque não encontrei uma organização com
alguma estrutura onde me pudesse integrar. As Lebres têm
uma secção muito débil e é pena porque a Orientação hoje
em dia faz parte da nossa sociedade. Gostava de
transmitir aos outros o que aprendi sobre a modalidade e
que coloquei em prática na Escola Naval durante quatro
anos.
Recordei-lhe que há dois, três anos atrás, a secção
de Orientação das Lebres, era uma das maiores do país
nomeadamente na formação de jovens atletas que hoje
constituem as selecções nacionais e que muitos títulos
nacionais e internacionais deram ao clube. Por esse
trabalho desenvolvido, o Instituto do Desporto durante
três anos, nos galardoou com o Diploma de “Reconhecido
Mérito”
“sim, de facto nessa altura as Lebres desenvolviam um
grande trabalho, porém, eu ainda não estava “cá fora” na
vida civil. Cheguei até a falar com o professor
Chumbinho sobre a possibilidade de ensinar Orientação.
Entendo e cada vez mais que as pessoas deveriam saber um
pouco de Orientação, modalidade esta que já existe há
muitos anos mas que em Portugal surgiu através da
Marinha por volta dos anos 74 a 76. Era uma Orientação
um pouco rudimentar com cartas da Marinha, muito
difíceis em que os pormenores eram poucos. Hoje, as
cartas são autênticos GPS, está lá tudo, se houver uma
cadeira no meio da rua, ela está assinalada na carta. É
muito fácil.
Actualmente,, cada vez mais as pessoas gostam de fazer
caminhadas, andar na montanha e saber um pouco de
orientação ajuda-as, faz parte da cultura geral. Ora eu
sei que posso transmitir esses conhecimentos às pessoas.
O saber não deve ficar só para mim, devo e tenho a
obrigação de transmitir aos outros, razão pela qual ter
abordado o professor Chumbinho. Porém, também sabia que
apesar da secção estar bem posicionada no terreno em
termos competitivos, não havia uma retaguarda bem
estruturada. Por exemplo, os atletas deslocavam-se de
carro que combinavam uns com os outros, não havia outros
recursos.
“Mas, Herculano, essa situação também se passa com a
secção de Atletismo das Lebres e digamos, na grande
maioria dos clubes, por exemplo, nos Ídolos da Praça
onde você também fez atletismo e não deixa de estar
integrado na nossa secção. E temos vivido assim há quase
onze anos!”
“…pois, mas o Atletismo nas Lebres não é o ideal.
Temos que fazer um esforço para dar-mos um salto em
frente. O que se vive no Atletismo das Lebres é mais uma
participação que uma competição e a participação
estimula o convívio. Ora a forma como está estruturado o
transporte espartilha-nos muito e não nos proporciona
mais essa participação que estimule o convívio. Anda
cada um pelos seus próprios meios. Eu sei da dificuldade
que os clubes atravessam, mas continuamos toda a vida
com o mesmo discurso e não passamos daqui. É difícil
mas… temos que mudar alguma coisa. Eu costumo dizer que
são sempre os mesmos a fazer as mesmas coisas há muitos
anos. São sempre os mesmos a falar, está na hora de
mudarmos de caras.
“Mas você sendo um apaixonado pela Orientação e as
estruturas de tantas secções pelo país são iguais à
nossa e à própria secção de Atletismo, qual a razão do
Herculano não a praticar, ou melhor não fazer as duas?”
“Bem, a Orientação em termos participativos ainda não
atingiu a massificação que o Atletismo apresenta e eu
gosto da festa, do convívio, da diversidade de locais de
provas e a Orientação ainda não tem um calendário
geográfico tão diversificado e a participação nas provas
dos seus campeonatos Regionais e nacionais, obrigam-nos
a um dispêndio financeiro maior que a prática do
Atletismo. Depois, a simplicidade do Atletismo são uns
calções, uma T-shirt e uns bons sapatos. A Orientação
requer outro equipamento onde o dispêndio financeiro é
maior.
Durante trinta anos conciliei na Marinha as duas
modalidades, mas tinha tudo ao meu dispor. O transporte,
o alojamento enfim, não me preocupava com estes
pormenores. Por outro lado ainda, a prática da
Orientação implica alguma perda de velocidade no
Atletismo. Portanto, são estas as razões que me levaram
a dar continuidade ao Atletismo, onde aliás, aqui em
Setúbal já conhecia muita gente.
Que tempos relevantes tem no Atletismo?
“Tenho aos 800m 1min e 49 seg, na Maratona, com 54
anos, este ano em Sevilha, 2h e 51min o que me deixou
muito feliz, aos 5.000m registo o meu record com 15min e
47 seg e aos 10.000m 34 min. São marcas de referência
que não faço questão de as exibir. Nunca corri para
marcas… é chegar ao fim.
Como é que o Herculano aparece nas Lebres e porquê as
Lebres?
“ As Lebres já existem há bastantes anos” rectifiquei
– apenas há 10 “ estava nos Ídolos como poderia estar
nas Lebres. Conhecia as pessoas. Os Ídolos acabaram e
ainda corri como individual. Entretanto abordei o Rui
Infante e este indicou-me as pessoas com quem me havia
de dirigir… digamos que foi natural.
À pergunta, “o que pensa das Lebres”, Herculano
responde:
“Nos tempos difíceis que correm, as Lebres com a
dinâmica que desde sempre vem demonstrando e eu já li
algumas coisas sobre a sua história, espero que continue
com esse dinamismo apesar dos seus atletas terem alguma
veterania. Vê-se poucos jovens no Clube.
Mas a ausência de jovens nas Lebres, é geral, não é
só nas Lebres. A que se atribui?
“Primeiro, não há uma politica desportiva. O nosso
país não tem uma politica desportiva. Há pouco disse que
o discurso tem que mudar, as caras têm que mudar. Há
muita gente há muito tempo agarrado ao poder, nada se
muda. Por outro lado os media futebolizam muito o
desporto. A informática e a Internet são também
responsáveis. Então há aqui um conjunto de factores que
afastam os jovens.
Haverá educação desportiva de base? São criadas
condições que motivem os nossos jovens?
Temos que incutir nos jovens que o desporto em geral e o
atletismo em particular, é simples, é formativo é
saudável, tem tudo de bom. Não podem desistir na
primeira semana quando o corpo “está partido”. É
necessário incutir que nas semanas seguintes ele vai-se
adaptando e tornar-se-á mais fácil a pratica desportiva.
Temos que os ajudar a passar este muro. Importante
também são os colóquios, a formação teórica desportiva.
Os clubes não fazem isto, limitam-se a correr.
Mudemos de agulha. Desporto em Setúbal.
Setúbal é futebol ?
É, sim ou não uma cidade com uma polivalência
desportiva?
“Futebol não. Está parado.” Mas, Herculano, há
mais de 15 clubes a fazer futebol jovem em Setúbal!
Como está parado? “Não há uma dinâmica forte,
não há investimento na qualidade, não sai nada ou muito
pouco. Mas também não se pode pensar só na qualidade, é
necessário que os clubes formem homens. Não é muito
relevante que saiam atletas para a alta competição. Para
os clubes e atletas pode ser, mas para a sociedade em
geral não.
Pessoalmente, Setúbal não a considero uma cidade
desportiva, porque o futebol não generaliza o desporto.
Não há uma dinâmica desportiva. Existem actividades
pontuais e clubes que “desaparecem” com facilidade. Não,
Setúbal desportivamente não é uma cidade polivalente.”
Essa responsabilidade cabe a quem? “Aos nossos
eleitos que têm também responsabilidade na área
desportiva. Não chega promover ou patrocinar uma ou duas
provas por ano. Uma autarquia tem que fazer mais”
Mas o Estado não deve substituir os clubes! “Sim,
não deve substituir mas não se pode demitir da promoção
desportiva. As autarquias têm um pelouro do Desporto. É
a eles que compete desenvolver. Fala-se muito na vida
saudável que a prática desportiva proporciona, então
cabe à autarquia proporcionar essa prática. Não a vejo,
se calhar também não pode porque a questão financeira
restringe. Lá está o discurso, é sempre o mesmo.
Continuamos desde sempre com a carolice. Mas ela está a
desaparecer, não sei porquê. Cansaço, pois, as pessoas
sacrificam-se, dão tudo e depois não têm o
reconhecimento público do se esforço. Falta o apoio.
Herculano Pereira divagou um pouco sobre a pista de
atletismo, longe ou perto do atleta, condicionantes de
utilização, complexo desportivo aberto para a prática do
cidadão comum etc.
“o país não tem uma politica desportiva e Setúbal
também não. Muito pouco se faz pelo desporto.
Por vezes são necessárias pequenas coisas para
transformar uma cidade num local desportivo. Não temos
um circuito de manutenção. É difícil ? Não há espaço?
Não acredito. Não temos ou se as temos são muito poucas,
“placas desportivas”, onde a juventude pudesse jogar
futebol, basket, andebol etc.
A grande dinâmica de uma cidade desportiva passa pela
criação de locais de prática desportiva próximo das
pessoas. Por exemplo, o Jardim de Vanicelos muito pouco
aproveitado. Embora pequeno podia ser criado um Circuito
de Manutenção; a quinta de S. Paulo, local espectacular
para a prática desportiva se oferecesse outras
condições, a Comenda outro. O acesso à Serra da
Arrábida. Aquilo é um loby. Os ambientalistas não
autorizam a sua utilização. A serra é um laboratório de
saúde, é um dos locais mais bonitos que a cidade tem.
Vedaram o acesso ao ponto mais alto da serra de S. Luís.
Para mim, era um ritual aos fins de semana chegar lá
acima. Curiosamente, no ano em que vedaram o acesso
verifica-se um grande incêndio.”
A conversa vai longa, muito longa. O nosso Sargento
Ajudante estava entusiasmado no explanar das suas
ideias. O fim da tarde caiu, já é noite.
Para terminar
Temos Herculano no Atletismo até quando ?
“Até quando poder. Já não vivo sem o Atletismo. Não é
a minha vida, mas faz parte da minha qualidade de vida.
Um dia que deixe de treinar na minha Arrábida irei ter
muita dificuldade.
Mais importante que a medalha ganha na corrida é a saúde
que a prática desportiva me proporciona”
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26.03.2009, por Alberto Carolino |
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