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Hoje
Corro eu |
(Re) nascer em Abril
Por José Neves
É indesmentível para todos que vivemos tempos difíceis.
Tempos de incerteza, tempos em que muitos dizem não ter
“esperança”, tempos que nos parecem já ter existido um
melhor tempo. Esse tal tempo no qual parecia que tudo se
arrumava nos diferentes períodos da vida, um “tempo para
tudo”, como se dizia. Das criativas e sadias
brincadeiras na rua, à responsabilidade da escola pela
necessidade de interpretar o mundo pelas letras e pelos
números, até às paixões possíveis (e impossíveis) da
adolescência, à entrada no “mundo do trabalho” ou “mundo
dos homens”, eram os tempos para se ser criança, jovem e
adulto. Tempos que o tempo só nos devolve pela memória e
não necessariamente com sabor a angústia do “tempo
passado”. A propósito destas recordações, as que me
marcam mais (obviamente) são as que me fazem regressar à
meninice. Hoje quando estou a correr, a pedalar ou a
nadar, está um “menino” com 42 anos de idade com um
sorriso traquina, joelhos esfolados, mãos sujas de terra
e um coração que bate forte por amor à vida e à
liberdade. Se viajo na história (e claro no tempo) e em
vez de 42 tenho 8 anos, vejo-me a fazer V´s de vitória a
toda a gente enquanto corria para a “bicha do leite e
das batatas”. Eram também tempos difíceis, mas tempos em
que a certeza maior era a de que o “velho tempo” daria
lugar a “novos tempos”.
A esperança constrói-se na medida do significado que
damos à vida individual, mas também ( e sobretudo)
colectiva. Somos felizes na justa dimensão da nossa
relação com outros, na forma em que pomos ao dispor a
nossa sabedoria, competências e emoções, ou seja, como
aprendemos a partilhar o que de nós também foi e é parte
dos outros. Passados estes anos todos, sinto que aquele
projecto de sociedade que cantava em todos os refrões as
palavras “nós” e “liberdade” e que havia sucedido ao
“tempo da velha senhora”, de certa forma falhou, talvez
por isso vivemos tempos difíceis, de incerteza, mas… e
se apesar disso matarmos definitivamente a tal
“moribunda esperança”?
Naquele tempo ainda em que as jogadas de futebol ou
hóquei patins nos eram sugeridas pela voz de um locutor
da rádio, os meus maiores heróis continuavam (e
continuam) a ser aqueles que mergulhavam dos altos
guindastes “semeados” num Barreiro industrial à beira do
Tejo, ou o atravessavam a nado até ao Seixal. Os que
corriam atrás dos caranguejos na maré vazia, ou
deslizavam em pranchas no lodo, os que faziam carros de
esferas e ainda aqueles que venciam as lutas “corpo a
corpo” em disputas justas. Meninos de rua, filhos de
operários longe (ainda) dos muros da fábrica, à solta
num espaço em que os maiores brinquedos eram os que a
imaginação produzia, heróis lendários vestidos de
calções e sandálias e armados… de esperança.
Hoje revendo esta galeria de personagens dignas da minha
memória mas também da minha educação, vejo que alguns
por baixo dos seus trajes de adulto ainda vestem a tal
indumentária heróica” resistindo e brincando neste tempo
em que “não há tempo para nada”. Outros, contudo,
despidos e “desarmados” desceram ao mundo dos homens
para mergulharem novamente, mas desta vez para o vazio,
num tempo “só para si”.
Estamos em Abril de 2009, em tempos difíceis, tempos de
incerteza mas onde devíamos nascer todos meninos por uma
(outra) vez.
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16.04.2009, por
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