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Hoje
Corro eu |
Por Ricardo Bastos
Pediram-me que eu me dirigisse a todos vós, atletas,
sócios e simpatizantes das Lebres do Sado, através da
rubrica “Hoje corro eu” inserida na Webpágina do clube.
no sentido de contar as minhas aventuras desportivas e
quanto a corrida é importante ou não.
É a história de um atleta mediano a resvalar para o
medíocre contada em dois capítulos, igual à de milhares
delas existentes entre os muitos anónimos que constituem
o nosso vasto pelotão português.
Ali, naquela massa humana anónima existem histórias
fantásticas de vida, de dedicação à modalidade, imensos
campeões de outros tempos e sobretudo gente que ama o
bem-estar físico e psíquico. Gente que faz da corrida
uma forma salutar de estar na vida.
A minha história tem um pouco de tudo isto. Começou
quando eu tinha seis ou sete anos altura em que me
ofereceram o primeiro relógio.
Ia para o meio dos montes correr numa busca constante de
bater os meus tempos. Mais tarde fiz uma incursão pelo
futebol no clube da minha terra, a União Desportiva
Oliveirense, experiência efémera pois durou apenas meio
ano. Não gostei, até tinha jeito mas como não jogava o
atleta mas sim o nome do pai dele, abandonei aquilo. Não
tinha paciência para andar a mando de um treinador que
só metia a jogar os filhos dos amigos dele…
Encontrei, com catorze anos, no atletismo o desporto que
viria a abraçar como a minha modalidade de eleição. Foi
num clube que fez história em toda esta região que eu
corri até aos dezoito anos. Clube esse que acabou para a
modalidade quando os atletas começaram a receber
dinheiro para o representar. Não fora o GRACC (Grupo
Recreativo Associativo e Cultural de Cidacos) e eu
certamente não era quem sou hoje.
Com a minha saída da terra para estudar, o atletismo
ainda foi algo que pratiquei no seminário. Foi neste
primeiro ano que consegui o meu registo, em termos de
palmarés, mais assinalável. Ser campeão regional de
Aveiro numa estafeta de 4 X 400 metros e ainda o
apuramento para um Nacional de corta mato do desporto
escolar aí em Tróia.
Depois vêm o fim dos estudos e o princípio da vida
activa no mundo do trabalho. O atletismo ficou esquecido
durante cerca de vinte longos anos.
Em 2002 numa das raras visitas que fiz a uma balança
apanhei um dos maiores sustos da vida. Não estava a ver
mal não senhor, estava lá plasmado 96 kg,
Nos dias seguintes travei uma luta comigo mesmo. Era
imperiosa uma mudança de vida. Tentei recomeçar a correr
mas era penoso. Não conseguia correr mais de 100 metros
sem parar. Decidi fazer uns joguinhos de futebol de
salão a par das corridas para criar resistência.
Desafiaram-me para uma prova de Atletismo e lá fui.
Último lugar garantido na classificação geral. Pouco
importante. Talvez mais, foi ter voltado a sentir a
adrenalina e o frenesim de um pelotão em competição.
A “mini da Ponte 25 de Abril” seduziu-me . No ano
seguinte lá estava novamente a fazer a “mini”. Quando
terminei, ao olhar para cima da Ponte e vi que estava
completamente cheia de gente, senti que queria correr
mais. Apanhei o “Ferry” e atravessei o rio para a outra
margem voltando a fazer os 7 kms. No momento em que
completei estes segundos 7 kms perguntei a mim mesmo:
“então rapaz, quem faz 14 kms não é capaz de fazer uma
meia Maratona? É só mais um pequeno esforço”…
Alguns meses depois na Ponte Vasco da Gama,
encontrava-me determinado em cumprir a minha primeira
Meia Maratona. Descontraído até aos 6 kms, local onde
teria de optar pelo lado esquerdo para a “Meia” e o lado
direito para a “Mini”. Decisão terrível a que tinha de
tomar e só dispunha de cerca de mais 100 metros para o
fazer. Fui-me encostando ao lado direito mas na curva
apertada da decisão virei à esquerda. Já não havia nada
a fazer, agora era seguir em frente. Aos 10 kms já vinha
a “morrer” mas tinha de andar. Lembro-me que aquilo
nunca mais acabava. Fazíamos cerca de 6 kms dentro do
parque das Nações e os carros já buzinavam tal a
impaciência dos seus condutores pela espera, mais que
muita.
Memorável aquela chegada no incrível tempo de 2 h 30 m
06 s. Chegaram então sessenta e oito atletas depois de
mim… Não parei mais de realizar Meias Maratonas, é a
minha distância favorita, pois dá para pensar, gozar,
sofrer, rir, conviver e até para correr e não se chega
ao fim morto…
Tinha um sonho antigo, desde o dia em que vi o Carlos
Lopes ganhar fantasticamente a Maratona Olímpica,
realizar também eu uma maratona. Para tal teria de
vencer o meu peso pois ainda estava com 86 kg. Sem saber
se conseguiria baixar dos 80 kg, inscrevi-me na Maratona
de Roma e no dia 17 de Março de 2007 encontrava-me na
partida com 78 kg e com uma vontade doida de conquistar
Roma. Quatro horas e vinte e um minutos depois da
partida reinava de alegria triunfante a cortar a meta em
frente ao majestoso “Coliseum”.
A partir do momento em que me considerei um maratonista
a minha vida deu nova volta e em menos de dois meses
estava misturado, sem saber, com um lote de vinte e
cinco atletas numa praça em Ponte de Lima, pronto a
fazer os “Caminhos de Santiago”.
Vim a saber mais tarde que todos aqueles homens e
mulheres eram a nata dos Ultra-Maratonistas portugueses.
Fiz má figura, muito má mesmo, fiquei KO com apenas uma
etapa. Cheguei a Valença a desejar não ter nascido. Fiz
apenas mais outra de 19 km e acabaram os “Caminhos” para
mim.
Foi uma experiência memorável, conheci gente fantástica
e atletas de excepcional craveira. Disfarcei a minha
falta de jeito para aquelas cavalgadas com a
generosidade em andar a levar água e tirar fotos a quem
corria, tentava dar força à minha maneira.
No ano seguinte lá estava novamente para fazer os
“Caminhos de Santiago”.
Novo fracasso ao fim da segunda etapa, tinha os pés
rebentados e a prova arruinada. Mais uma vez aproveitei
para cimentar amizades. Em 2008 aventurei-me numa outra
vertente do atletismo, as Ultra-Maratonas, normalmente
feitas em terrenos montanhosos. Assim, fiz a “Geira
Romana” e a “Freita”.
Para animar o ano de 2009, decidi uma vez mais inovar.
Contactei três Instituições de Solidariedade Social de
Oliveira de Azeméis e propus-lhes trocar os meus kms das
Ultra-Maratonas por Euros. Acharam uma ideia
interessante no entanto um tanto ou quanto louca.
Ninguém percebia o que levava uma pessoa a correr 270
kms, depois troca-los por Euros e entrega-los sem exigir
nada em troca. Só eu sabia o objectivo desta empreitada.
Só eu sabia o quanto me iria custar esta minha ousadia.
Como era uma tarefa grandiosa e especial tinha de
escolher pessoas grandiosas e especiais para me
acompanharem. O meu Clube não considera este tipo de
provas atletismo, foi desta forma que escolhi e em boa
hora o fiz, as “Lebres do Sado” como Clube parceiro
nestas três provas.
Já aqui relatei em outros momentos o que foi acontecendo
nas provas em questão. Quero só realçar que as “Lebres
do Sado” me ajudaram a entregar à Santa Casa de
Misericórdia de Oliveira de Azeméis 1.410,71€; à CERCIAZ
820,72€ e ao Centro de Acolhimento Familiar Pinto de
Carvalho 850,72 €, num total de 3.082,15€.
Esta é a história de um indivíduo que mal se considera
um atleta mas que alguns apelidam de Ultra Maratonista.
Um individuo que corre mais com o coração e com a alma
que com as pernas. Um individuo que gosta de correr por
causas. Um individuo que dá mais valor às pessoas que às
coisas. Um individuo que ama a sua terra e que tudo faz
por a divulgar e melhorar. Um individuo que é sócio de
quase todas as associações e instituições de Oliveira de
Azeméis e faz ou fez parte dos seus órgãos sociais. Um
indivíduo que para se sentir feliz tem de participar
activamente na vida da sua terra, quer seja como
Presidente da Junta de Freguesia, que já fui, ou na
Assembleia Municipal de que faz parte agora…
Esta é a história de um bancário que tem mais vida para
além do trabalho e que acredita que o desporto é um meio
privilegiado de relacionamento humano e um instrumento
precioso para o equilíbrio essencial à vida.
Ao olhar para as minhas medalhas verifico que o desporto
está presente em tudo o que faço e tem um leque alargado
e variado que vai desde o Atletismo passando por
Andebol, Basket, Voley, Xadrez, Damas, Pesca Ciclismo e
Futebol…
Pediram-me para fazer uma crónica de um corredor e à
minha imagem e semelhança eu dou-vos uma maratona de
escrita.
Esta é a minha forma de viver, esta é a minha forma de
correr. Devo dizer-vos que sou feliz…
Pronto, já corri…
Um abraço e obrigado por tudo… |
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05.11.2009, por
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